Carlos de Azevedo Leão

Nível de descrição

Fundo

Código de Referência

CAL

Título

Carlos de Azevedo Leão

Datas e locais de nascimento e morte

Rio de Janeiro, Brasil 1906 - 1983

 

Biografia

 

Carlos de Azevedo Leão, chamado pelos amigos e familiares de Caloca, nasceu no Rio de Janeiro em 1906 e faleceu em 1983.

Formou-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes, em 1931. Assim que se formou, iniciou-se profissionalmente no escritório de Lúcio Costa e Gregori Warchavchik, renomado arquiteto ucraniano. Por conta das atividades desenvolvidas neste escritório, e pela parceria mantida com Lúcio Costa após este trabalho, passou a integrar a equipe que participou do projeto do Ministério da Educação e Saúde  Pública (MESP) em 1936, na qual colaborou junto aos arquitetos Oscar Niemeyer, Jorge Machado Moreira, Affonso Eduardo Reidy, Ernani de Vasconcellos, e com aquele que iria influenciar na sua trajetória profissional: o arquiteto franco-suíço Le Corbusier. A partir dessa parceria e cumplicidade profissional adquirida com Le Corbusier, deu-se início a um intenso diálogo por ocasião dos estudos e tentativas de aprovação do projeto da Cidade Universitária do Brasil, proposto para um concurso da universidade no espaço da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão.

O percurso profissional de Leão ficou marcado pelo desenvolvimento de residências, as quais eram pensadas bem ao gosto dos clientes, com o arquiteto colocando-se como o proprietário do espaço em questão - após conhecer as demandas e manias da família - e preocupando-se sempre com a qualidade de vida dos usuários. Durante um bom tempo, desenvolveu um trabalho que congregava as particularidades do cliente com a liberdade para desenvolver um trabalho livre de regras e estilos, o que o permitia, às vezes, trabalhar numa linha híbrida, que conjugava elementos entre a arquitetura tradicional e a moderna. No entanto, este movimento livre da concorrência do determinismo de estilos da época situou-se entre a residência de sua mãe, Francisca de Azevedo Leão - que fora construída dentro dos padrões racionalistas, desenvolvida num parâmetro reconhecidamente moderno - até o retorno deste estilo na década de 1950, em um projeto para residência Homero Sousa e Silva. Neste projeto, retornou conceitos racionalistas empregados numa habitação unifamiliar, com dimensões generosas e referenciais encontrados na arquitetura corbusiana.

Carlos Leão, apesar de mais conhecido pelos seus projetos residenciais, teve considerável atuação no âmbito institucional. Além de fazer parte do grupo responsável pelo projeto do MESP, teve passagens por associações de classe e departamentos de projetos de empresas e instituições. Pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - SPHAN, no cargo de assistente técnico, atuou na reforma do antigo Senado Federal e na restauração da Igreja da Nossa Senhora da Boa Viagem, na Ilha da Boa Viagem, em Niterói/RJ, ambos na década de 1930.

Carlos Leão chefiou o serviço de arquitetura da Comissão do Plano da Universidade do Brasil no ano de 1940. Neste trabalho, teve colegas do grupo do MESP, como Jorge Machado Moreira e Oscar Niemeyer, companheiros que ainda estariam juntos para outros propósitos da arquitetura.

Fez projetos para o edifício da Diretoria Técnica do Café e para o Colégio Pedro II na Praia Vermelha, em parceria com o arquiteto Ernani Vasconcellos. Projetou hospitais para o tratamento da tuberculose com o parceiro Jorge Machado Moreira.

Em 1940, Leão ingressou no Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Bancários (IAPB), para chefiar a carteira imobiliária. Desenvolveu, junto ao arquiteto Aldary Henriques Toledo, desde conjuntos habitacionais até importantes prédios muito bem estruturados. Aposentou-se neste instituto em 1957. Em 1941, foi eleito para compor o Conselho Diretor do Instituto de Arquitetos do Brasil, no biênio 1941-1942.

Após a aposentadoria do IAPB, Leão passou a se dedicar à reforma da Fazenda Vargas, na qual o arquiteto passou a residir nesta nova fase de sua vida. Passou a empenhar o seu foco na elaboração de projetos independentes e aos desenhos que sempre gostou de fazer. Carlos Leão, desde sempre, mostrou, em paralelo à sua produção de projetos de arquitetura, considerável trabalho sobre o desenho do nu feminino e, por vezes, desenhos satíricos e de natureza-morta. Em grande número, desenhava nos versos das suas pranchas de trabalho, com grande apuro de técnica. Para o poeta Carlos Drummond de Andrade, Carlos Leão foi o artista que melhor registrou em seus desenhos a poesia e a musicalidade dos corpos femininos. Sintetizava com sensibilidade em seus traços os mistérios sutilmente harmonizados nos contornos femininos. Tal afirmação é endossada pelo também poeta Vinicius de Moraes, que via no seu familiar companheiro um incomparável desenhista.

Já o pintor Cândido Portinari, que confidenciava preliminarmente os seus trabalhos artísticos a Leão, via no arquiteto um talentoso desenhista no contexto internacional.

Leão era afeito à boemia e aos lugares onde podia apreciar um bom uísque após o trabalho, como o Villarino e o Pardelas. Conservava muito boa cultura. Na Lapa, foi onde desenvolveu seu traço, inspirado nos personagens da noite carioca, principalmente mulheres, mas tinha o hábito de jogar os desenhos fora após amassá-los. Isto mudou quando Suzana de Moraes - filha de Vinícius de Moraes com a irmã de sua esposa, a qual era uma admiradora confessa de seus desenhos -, passou a incentivá-lo na arte daquilo que gostava de desenhar: o nu feminino. Suzana emprestara ao talento de Leão as suas curvas, que eram rapidamente construídas pelos traços ligeiros em linhas simples e formas sensuais. Talvez por influência deste ofício, legou aos seus projetos traços de sensualidade espacial. Porém, parafraseando Lúcio Costa: no confronto entre a arte de desenhar e se dedicar na percepção visual do corpo feminino - quem perdeu foi a arquitetura.

Carlos Leão, para além dos desenhos casuais sempre presentes em sua vida, iniciou sua atuação como ilustrador no livro Poemas, sonetos e baladas, de Vinicius de Moraes, para quem também ilustrou o livro Para viver um grande amor. Ainda ilustrou os livros Amor, amores e Boca de Luar, de Carlos Drummond de Andrade, e discos musicais como o São demais os perigos desta vida..., de Toquinho e Vinícius.

Por conta do gosto pelo desenho e pela reconhecida qualidade destes, participou de diversas exposições - individuais e coletivas - ao longo da vida. Iniciou em 1944, quando da Exhibition of Modern Paintings, em Londres, e o percurso das obras continuou com mostras póstumas no eixo Rio-São Paulo em centros culturais e, notadamente, no Museu de Arte Moderna, que, no ano seguinte ao seu falecimento, emprestou o seu espaço para a exposição Carlos Leão: desenhos e aquarelas.

Referências

Biografia redigida por João Claudio Paruncher (julho de 2020, in memoriam).

ESTRUTURA ARQUIVÍSTICA